DA INSTABILIDADE
AOS SONHOS 

O coletivo teatral 28 Patas Furiosas realiza, desde 2013, uma pesquisa artística calcada em procedimentos criativos autorais que transitam entre o teatro, a performance e as artes visuais, apoiados pelo universo de autores e autoras que escreveram suas obras em contextos de instabilidade política e social. Desde sua fundação até 2019, o coletivo criou os três espetáculos que integram a Trilogia da Instabilidade: lenz, um outro, A Macieira e PAREDE.

O autor alemão Georg Büchner inspirou a criação de lenz, um outro, peça de estreia do grupo em 2014, com versão revisitada em 2017. Já o universo da obra da autora romena Herta Müller deu origem ao espetáculo A Macieira em 2016; e a vida/obra do escritor brasileiro Qorpo-Santo foi ponto de partida para a construção de PAREDE, espetáculo que estreou em 2019. Sem limitar-se a transpor para o teatro estes materiais literários, mas na busca por reinventá-los a partir das reflexões, inquietações e assombros do grupo em diálogo com o tempo/espaço presentes, as peças que compõem a Trilogia surgiram sob a mesma inquietação: como desestabilizar a ordem em busca de novas possibilidades de existência?

Em 2021 o coletivo apresentou a performance-instalação Da Instabilidade aos Sonhos no Centro Cultural São Paulo, na qual revisitou suas pesquisas anteriores, traçando um lugar de memória e luto que compõem a trajetória artística do grupo em diálogo com a História recente do Brasil.

A performance Da Instabilidade aos Sonhos propõe uma instalação cênica construída a partir da pesquisa de diversas materialidades realizada em 2020/2021. Nesta instalação, as atrizes e os atores do 28 Patas Furiosas ensaiam - diante e entre o público - práticas inventadas de um ritual poético de luto. Suas motivações envolvem pensar em como deixar nascer o luto, entender qual é o corpo e o peso do luto, como presentificá-lo e celebrá-lo. Além disso, o grupo também reflete sobre como é possível transformar a morte de três peças de teatro e retomar os espaços, a teatralidade e a linguagem artística que norteiam o coletivo.

Memória e Luto de uma Trilogia

Trata-se de admitir e vivenciar o luto da morte de pessoas, de espaços e daquela qualidade de presença, para que uma nova presença se instaure. Estamos, neste momento, olhando para o passado e reivindicando novas ferramentas e tecnologias para enfrentar o presente e avançar para o futuro. No mito do Kuarup do povo Kamayurá, uma comunidade tentou reaver seus mortos a partir de um ritual com 03 troncos de árvores e descobriu ser impossível trazê-los de volta. Assim é que inventaram o dever de comemorá-los para poder celebrar e aprender com a finitude de quem não estava mais ali. O 28 Patas Furiosas, por sua vez, irá agora se debruçar e comemorar os seus 03 “troncos”: lenz, um outro, A Macieira e PAREDE diante da seguinte pergunta: Como podemos encarar o espírito do passado para que este ilumine novos caminhos para o futuro?

 

Nesse sentido é que surge uma narrativa que nos guia pelos caminhos da Trilogia, e esta chega pela voz de uma Serpente que, se desfazendo de suas peles, passeia pelo tempo e pela memória (do grupo e da recente História do Brasil), para viver o luto daqueles que não mais estão aqui, e assim, poder seguir comemorando e transformando aquilo que inventamos como modo de existir. 

 

A instalação tem como referência, um Sambaqui - sítio arqueológico deixado por povos originários que habitavam a costa brasileira. Neste espaço cênico - ou cemitério de memórias - as atrizes e os atores do 28 Patas Furiosas ensaiam - diante do público - práticas inventadas de um ritual poético de luto. Para tanto, se arriscam nas seguintes perguntas: Como deixar nascer o luto? Qual é o corpo e o peso do luto? Como presentificar e celebrar o luto? Como refletir e transformar a morte de três peças de teatro? Como retomar os espaços, a teatralidade, a linguagem? Como dignificar a morte de pessoas, idéias e desejos? Como vigiar a morte e sonhar com a vida? 

Então chegamos a 2021, tempo em que a Instabilidade parece querer fincar suas raízes. Ao nos reaproximarmos dos espetáculos lenz, um outro, A Macieira e PAREDE, depois de ter adentrado uma pesquisa sobre os sonhos a partir da perspectiva de alguns povos ameríndios (Um Jaguar por Noite - nova pesquisa do grupo), reconhecemos a impossibilidade de retomar as peças da maneira como aconteceram. O mundo já é outro. Aquela presença não existe mais, aquela teatralidade está em plena transformação. A ideia de  transformar a Trilogia agora, se dá pela necessidade de percorrer o caminho de volta como quem pede licença aos mortos para que a vida continue. 

Durante os últimos anos, aprendemos com algumas figuras indígenas a importância de reconhecer os caminhos. Para que uma alma possa vagar no mundo dos sonhos e percorrer outras geografias, é preciso saber fazer o caminho de volta, senão corre-se o risco de ser cooptado e acabar ficando na aldeia dos mortos. Afinal, é preciso saber retornar para que a morte não vire sua parente. 

 

 

Assim é que Da Instabilidade aos Sonhos deseja percorrer o caminho dos mortos de volta para 2013 até conseguirmos apontar (sonhar?) um novo presente para 2022 e além.

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